ROCHA, Noemy

Natural de Porto Alegre , 24 de novembro de 1889 - 1 de outubro de 1978, São Leopoldo (RS). Filha única de José Luiz Corrêa Vasques do Valle e de Cândida Pereira do Valle. Cedo, ficou órfã de pai e passou a ser assistida pelo tio, Feliciano Pereira do Valle, fiscal do imposto do consumo e elemento decisivo na sua formação. Noemy cursou o Colégio Sevigné em Porto Alegre, notabilizando-se pelos seus dotes musicais e facilidade no estudo das línguas. Seu desejo de estudar Medicina encontrou forte oposição familiar. Casou aos quinze anos de idade com um aluno da Escola Militar Augusto de Mendonça Rocha e aos dezessete, ficou viúva. Trabalhou dando aulas particulares em sua residência, o que lhe garantia o sustento, mas ainda queria ser médica. Matriculou-se no primeiro ano do curso médico em 1912. Foi a segunda mulher a formar-se em Medicina na Faculdade de Porto Alegre, em 1917, e a primeira a exercer efetivamente a profissão. Defendeu a tese “Autovacinoterapia em Ginecologia”. Enfrentou resistências e preconceitos, ora expressos diretamente, ora disfarçados em brincadeiras de mau gosto. Passou a trabalhar em Clínica Geral, Ginecologia e Obstetrícia. Trabalhou ativamente durante a epidemia de Gripe Espanhola de 1918, tendo adoecido mas felizmente se recuperado. Após fez viagens de estudo e compareceu a vários congressos. Participou, por algum tempo, do corpo docente da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, na condição de assistente do Professor Pereira Filho, titular da cadeira de Microbiologia. Na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre atendeu na Enfermaria responsável pela Ginecologia e Obstetrícia, chegando a chefiar o Laboratório de Pesquisas da Maternidade. Aliada à Federação pelo Progresso Feminino, foi sócia fundadora do Grêmio Anita Garibaldi, e preconizou comportamentos a serem seguidos pelas mulheres perante a bandeira nacional. Sentia a necessidade de lutar pela valorização do trabalho delas e buscava oportunidades para que as mulheres progredissem e se impusessem pelo conhecimento e pelo trabalho. Publicou contos e crônicas na imprensa. Concedeu importantes entrevistas ao Correio do Povo e ao Diário de Notícias, depondo sobre a socialização da Medicina, o sufrágio feminino, o ensino religioso nas escolas e o cinema nacional. Manteve polêmica com os senhores Egídio Itaqui e Teodomiro Tostes, na defesa do feminismo. Foi das primeiras mulheres a dirigir automóvel no Rio Grande do Sul e a sua carteira de motorista era a de número vinte e sete. Ao natural, ela foi tendo oportunidade de fazer literatura. Escrever sobre ficção e folclore do Rio Grande do Sul, passou a ser a sua nova paixão e firmou-se como grande conhecedora do linguajar e dos costumes das diferentes populações do Estado. A sua conferência, Conceitos Gerais sobre Folclore, teve grande repercussão no Estado e fora dele. Sua produção literária inclui um livro de contos em 1948, intitulado Reflexos d’Alma. Conferencista consagrada, deixou coletânea de discursos acadêmicos no livro Quatro Perfis Literários. Ficaram ainda como de sua autoria: Conceitos gerais sobre folclore (1953), A fraude no imposto de consumo, O sufrágio feminino, na imprensa de Porto Alegre; O beija-flor, crônica, Almanaque do Correio do Povo, Porto Alegre, 1968; Higiene escolar, tese no Primeiro Congresso de professores Primários do RS, Porto Alegre, 1930; Vida e obra da Professora Jenny Seabra de Souza, conferência na Associação dos Amigos do Terceiro Distrito, P. Alegre, 14 de dezembro de 1968. Participou da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, tendo ingressado na instituição em 1948 e foi Presidente em dois mandatos, o primeiro no biênio 1955-1956 e o segundo em 1957 e 1958. Desenvolveu intenso programa de intercâmbio cultural com os países do Prata e com outros Estados da Federação. Divulgava nossa cultura através da revista Atenéia, periódico pertencente a Academia Literária, e de programas radiofônicos semanais em estações de rádio de emissoras de Bagé, de Uruguaiana e de Santiago, que passaram a transmitir o programa Sempre Mais Acima, Sempre Mais Além, título-lema da revista trimestral da Academia. Recebeu os prêmios e distinções: membro de honra da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul; ocupante da cadeira 11 da Academia Sul-Brasileira de Letras, sediada em Pelotas, passando a ser patrona da cadeira 45 após reformulação da Academia; membro da Casa Juvenal Galeno, Fortaleza, Ceará; miembro de la Confraternidad Universal Balzaquiana, Montevidéu, Uruguai; academicum “Honores Causa”, da Academia Andronosófica da Republicae Santi Marini, Roma, Itália; Accadêmica Onorária de la Accademia Universale Inventori e Autori de Roma; miembro de Honor del Instituto de Cultura Americana, República Argentina; membro de honra da Associação Internacional de Imprensa, Seção do Paraná; secretaria general para el R.G.S. del Círculo Interamericano de Difusión Cultural, Buenos Aires, Argentina; membro honorário da Casa Humberto de Campos, seção de Mato Grosso; membro honorário da Associação de Intercâmbio de Cultura de Quiratinga, Mato Grosso; membro honorário da União das Organizações Científicas, Pacifistas Latino-Indianas (Proposta do escritor Raymundo Maranhão Aires de Mato Grosso); sócia fundadora do Instituto Cultural Uruguayo-Brasileiro de Porto Alegre; sócia de honra do Instituto Panamericanista; colaboradora espiritual y miembro benemérito del Atenéo Universal Femenino Alta Cultura y Confraternidad Espiritual, Buenos Aires; hermana espiritual de la Sociedad Gaucha Jumare Rofole, Republica Oriental del Uruguay; sócia correspondente do Centro de Letras do Paraná; com voto de louvor por sua colaboração, méritos pessoais e intelectuais, em 1955; sócia corresponsal, en el Brasil, de la Associación Cultural Latino-Americana, Buenos Aires. Teve uma filha de criação e legou à Academia Literária Feminina sua residência assobradada, que se transformou na sede da Academia, à Rua Sarmento Leite, 933.

SPINELI, Teniza (Org.) Casa de Noemy Valle Rocha: História e Memória da ALFRS. Porto Alegre: Vidráguas, 2017. Revista Máscara, n.39, Ano I, 9 de Nov. 1918.

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